E os Tom Bradys que se perdem?

11 de Fevereiro, 2021 - 6 mins de leitura

A NFL é composta por 32 equipas, tem centenas de olheiros, largas dezenas de treinadores, outras tantas dezenas de dirigentes e gestores, mais uma enormidade de especialistas e comentadores. Há 20 anos, no entanto, ninguém foi capaz de ver que Tom Brady tinha qualidade e que seria um bom jogador na Liga. Muito menos que seria o melhor. Justiça lhes seja feita, eles não foram os únicos. Os treinadores de Brady durante os anos formativos também não foram capazes de o perceber. (“He didn’t earn playing time as a high school freshman (…) and he started seventh on the University of Michigan’s quarterback depth chart, never saw the field for the next two years”.)

Mas podemos condená-los? Você daria alguma coisa por este rapaz? Ou também seria iludido por aquilo que os olhos veem? Se acha que não, pense outra vez. Se até os peritos foram…

A certa altura das primeiras páginas do livro Projeto Refazer, Michael Lewis escreve que “era mais provável que jogadores cujos corpos tivessem formas invulgares fossem menosprezados” e que, pelo contrário, “era mais provável que jogadores bem-parecidos e com boa compleição física fossem sobrestimados”. O autor fala em “preconceitos” – que, acrescento eu, vão muito para além do físico – formados, alimentados, e, por fim, enraizados nas mentes de quem toma decisões e faz escolhas, e que podem provocar erros de análise e de julgamento. Essa conclusão, aliás, esteve na génese do nascimento do ‘Moneyball’, porque se acreditava que os números podiam travar essa realidade.

Voltando a Tom Brady, o certo é que todos, desde especialistas, passando pelos melhores ‘detetores de talento’ e acabando nos melhores treinadores da NFL, se enganaram. Nenhum foi capaz de antecipar o que se seguiria, talvez nem os New England Patriots, a equipa que o escolheu como 199.ª escolha do draft. O que este dado inacreditável significa é que, teoricamente, existiam 198 jogadores melhores e com (muitas) mais probabilidades de construírem uma carreira bem-sucedida.

Não foi assim. E chegados aqui, é inevitável: as perguntas atropelam-se. O que se passou? Como é possível algo desta dimensão? Estavam todos errados ou Tom Brady não era mesmo nada prometedor e desafiou tudo e todos graças a uma evolução impensável? O que se pode aprender com este caso? Quantos Bradys há por aí? Como podemos descobri-los e ajudá-los? Quem são, realmente, os melhores e o que os distingue?

Sabe que entre as 3,6 milhões de crianças e jovens que começam a jogar basquetebol nos Estados Unidos, apenas 50 chegam à NBA?* E que logo na primeira seleção, esses 3,6 milhões são reduzidos drasticamente para 540 mil? Mais de três milhões ficam para trás, são rejeitados, postos de lado e apreendem a mensagem de que não são suficientemente bons, quando ainda estão a meio da adolescência. Então, quantos se perdem pelo caminho em idades em que é muito difícil (senão impossível) garantir quem tem o que é preciso para chegar ao topo? E, talvez, o problema nem seja a seleção precoce em si mas o que se pensa ser o talento e os requisitos para avançar nessa seleção.

O exemplo de Tom Brady é uma raridade pela dimensão que acabou por alcançar, mas não é uma exceção. Deixa várias lições, levanta dúvidas e deve fazer repensar e promover a reflexão sobre vários assuntos, desde recrutamento, formação de atletas, criação de equipas, contextos benéficos ou prejudiciais, entre outros.

Escolher? E com base em quê?

Para quem vê, observa e analisa não é difícil perceber quais são os atletas que se destacam. Esses são raros e dão nas vistas quase imediatamente, seja pela velocidade, pela técnica, pelo físico, etc; o difícil (impossível?) é perceber quem é que entre os que não se destacam por aí além tem características que os pode levar a ter sucesso numa determinada modalidade. Esta complexidade ganha ainda mais relevância quando nos apercebemos de que a maioria dos atletas, seja no que for, estão no grupo dos que, a determinada altura, não se destacam. Sendo um nicho de mercado tão vasto, então não devia ser fulcral estar preparado para o compreender, analisar e aproveitar?

No futebol de formação, até em idades mais precoces, é usual ver miúdos a não jogarem e a não competirem por serem mais limitados do que os que jogam. É possível, e provável, que o sejam, mas não é garantido que daqui a um, dois, três ou quatro anos os estatutos sejam mantidos. Então, não deviam todos terem oportunidades para crescerem, melhorarem e alimentarem o sonho de poderem ter uma carreira, em vez de serem desvalorizados porque, supostamente, não têm qualidade aos 8, 9 ou 10 anos? Aproveitar e não desaproveitar talento. Maximizar e não minimizar hipóteses e ambições.

As qualidades mentais e pessoais

Tom Brady não era forte, nem rápido, nem saltava muito. Ou seja, à vista desarmada não tinha nada que o destacasse. Mas era disciplinado, ambicioso, humilde, trabalhador, resiliente, inconformado, responsável, apaixonado pelo jogo, tinha conhecimento e uma capacidade e uma destreza mental muito acima da média. Basicamente, era dotado de todas as qualidades e características indispensáveis para alguém, independentemente da área e da modalidade, ter uma carreira consistente e bem-sucedida, se, claro, conciliadas com atributos específicos apurados para a respetiva atividade.

Se querem realmente forma futebolistas, os clubes de futebol não devem servir apenas para ensinar a jogar futebol; também devem tentar ser um centro educacional para lá do aspirante a futebolista. Devem, sempre que possível, cuidar o lado pessoal e incutir valores/características, formas de estar, de pensar e de viver que também ajudarão os jovens a serem melhores pessoas e, consequentemente, melhores jogadores. Vale sempre a pena recordar que as principais qualidades de Brady, as que o elevaram ao estatuto de lenda, não são físicas, nem técnicas nem táticas. Essas são consequências.

O contexto conta

É impossível dissociar a carreira de Tom Brady da carreira de Bill Belichick, o único treinador que teve na carreira até esta temporada, quando mudou de equipa. Brady foi um dos últimos escolhidos nesse draft de 2000, mas caiu nas mãos de um dos grandes treinadores da história da NFL e de uma equipa/organização que lhe deu espaços, tempo, ferramentas e confiança para ele evoluir. O ‘azar’ de não ser considerado em alta consideração pela totalidade da indústria talvez tenha sido a sorte de Brady.

É consensual que se perdem e ganham jogadores, dependendo do contexto em que são inseridos, das oportunidades que têm e das pessoas que os rodeiam. Portanto, quando se contrata alguém é importante perceber que esse alguém vai render mais ou menos consoante aquilo que tem à disposição.

Talento em todo o lado

O caso de Brady é também sintomático de como é possível encontrar qualidade e mais-valias em sítios improváveis, em pessoas com pouca visibilidade, em jogos sem mediatismo, etc. Pensar em Brady é também ter a certeza de que há muitos, mesmo que longe do nível de sucesso que o americano alcançou, atletas, futebolistas ou treinadores subaproveitados, descontextualizados e a atual longe daquilo para o qual têm capacidade e estão capacitados. Mas não basta procurá-los e encontrá-los, também é preciso percebê-los, enquadrá-los, explorá-los, dar-lhes tempo e condições para se exibirem ao melhor nível.

Tom Brady não se perdeu nem ficou pelo caminho, mas o mais certo é que por cada Brady se percam dezenas e centenas de atletas devido a julgamentos precipitados, a más decisões, aos olhos preconceituosos de que fala Michael Lewis, a contextos desfavoráveis e a erros evitáveis. E o futebol também está cheio de falhas que podem ser aproveitadas.

*A explicação para a seleção de talento que leva à NBA

Vasco Samouco