Os clubes pequenos terão formação daqui a 10 anos?

25 de Março, 2021 - 5 mins de leitura

O futebol caminha sobre terreno minado. Desigual como nunca, preocupa-se mais em aumentar esse fosso, ajudando e cedendo aos caprichos dos mais fortes, ricos e poderosos – a remodelação prevista na Liga dos Campeões é o último exemplo dessa forma de estar e atuar – ao mesmo tempo que ignora as necessidades, as dificuldades e o futuro dos mais pequenos, cada vez mais desfavorecidos e limitados. Esta é, aliás, uma tendência aparentemente concertada entre as mais altas instâncias e os clubes maiores, ignorando algo que me parece tão claro quanto evidente: é a força da base que sustenta a pirâmide.

Esta realidade tem-se acentuado e evidenciado de diversas formas e em vários aspetos, mas é na formação, concretamente naquilo que ela representa ao nível das coletividades, das ligações que cria e até na importância que tem no desenvolvimento do gosto pelo futebol, que esta visão limitada e limitadora me parece mais preocupante e com o potencial mais nocivo para o futuro do futebol. Quem sabe se não ao ponto de colocar a sua sobrevivência em risco.

Quando se fala da formação em Portugal, há algo curioso e contraditório. A aposta nos jovens que é tão elogiada, embora não seja tão significativa quanto isso, é a mesma que deixa a nu outra coisa que me parece bem mais relevante: só Benfica, Sporting, F. C. Porto, Sp. Braga e V. Guimarães (uns mais do que outros, obviamente) lançam jogadores da formação e lhes dão (algum) tempo de jogo e continuidade competitiva. De resto, e falando em concreto I Liga, apenas o Belenenses SAD (Tomás Ribeiro) e o Nacional (João Camacho) têm um titular habitual que seja da sua formação. Nas divisões mais baixas, o panorama não é melhor e tentar encontrar explicações para isto implica perceber algo básico e decisivo: é que, ao longo dos anos, e de forma reiterada, descontrolada e desregulada, a maioria desses clubes vai perdendo os melhores jogadores que tem nas camadas jovens para os clubes mais fortes.

Como Renato Paiva disse no excelente webinar (ver no fim do texto) que a Liga de Clubes promoveu há umas semanas, “hoje em dia, os clubes grandes sentem necessidade de não se enganarem no scouting e decidem agregar o maior número de jogadores possível para minimizar os erros e para eles não irem para a concorrência”. Por isso, “chegam a ter quatro equipas de infantis ou quatro equipas de sub-12”. Mas esses clubes grandes também têm escolas de futebol espalhadas por todo o país, protocolos com vários clubes e um sem fim de estratégias com o fim de controlarem o máximo de jovens jogadores que conseguirem. Com que custos?

(Um aparte para se ter uma dimensão mais precisa desta realidade: o City Group, que detém o Manchester City, controla cerca de 1500 jogadores. Isto no início de 2000.)

Hoje, é normal ver miúdos de 8, 9 ou 10 anos deixarem a infância para trás, a família e os amigos para se juntarem a clubes grandes, às academias, etc. Mesmo sabendo que é impossível prever se chegarão a um patamar alto (as estatísticas são avassaladoras a este nível e dizem que não), os clubes fazem-no e insistem nisto. Uma das consequências diretas desta forma de atuar é que desde muito cedo, os clubes pequenos perdem qualidade na formação e jogadores que, no fundo, também são estímulos mobilizadores para se acreditar e investir em algo. E essa perda de qualidade acentua-se à medida que o escalão formativo é mais velho.

A esta ‘caça’ desenfreada dos mais poderosos aos mais pequenos, há que juntar a crença de muitos pais de que o melhor para os filhos é estar num clube grande, com supostas melhores condições e supostos melhores treinadores, do que num mais pequeno, sem que essa ideia tenha qualquer sustentação científica e real.

Já para não falar sobre as consequências desta mercantilização juvenil nos jovens. Quantos se perdem, futebolisticamente e não só, por irem para os grandes, onde vão ter menos tempo de jogo, menos competição, menos motivação e, ao fim e ao cabo, menos condições para atingir o profissionalismo? Quantos não são dispensados, ao fim de um ou dois anos, sofrendo com isso danos psicológicos, muitos vezes profundos e irreversíveis? Não seria melhor, deixá-los no clube de origem, mais modesto, mas onde jogariam mais, viveriam mais e seriam mais felizes?

Chegado a este ponto, é difícil encontrar razões para um clube de recursos limitados investir dinheiro, tempo, reflexão e em pessoas, sabendo que nunca ficará com os melhores jogadores, que nunca tirará os maiores proveitos desse processo/investimento e que está constantemente ameaçado pelos caprichos dos mais fortes. A motivação intrínseca de estar a contribuir para algo maior e com resultados a médio e a longo-prazo não é alimentada com resultados palpáveis, visíveis e moralizadores, logo é complicado haver melhorias nos processos e quem paga são os outros milhares de jovens que ficam entregues a clubes, pessoas e organizações desmotivadas, resignadas e fechadas.

Se os mais poderosos e mais ricos persistirem nesta procura desenfreada, quase doentia, de talento, neste efeito eucalipto, que seca tudo à volta, mais os clubes pequenos se afundarão no comodismo, na inação; mais as pessoas se afastarão e o provável é que a formação nos contextos mais desfavorecidos continue a perder importância (há muito que já não é uma prioridade). Contribuir só para mostrar aos grandes aquilo que eles podem ter, praticamente sem contrapartidas, não é grande estímulo.

Então, a formação nos clubes pequenos – que são a grande maioria, em Portugal e no Mundo – está ameaçada? É difícil não pensar nisso, nem que seja como uma possibilidade. Ainda que (e nunca é demais repeti-lo), a formação deva guiar-se por valores e objetivos maiores do que simplesmente formar grandes jogadores de futebol, é essa perspetiva de estar a contribuir para a evolução de um futuro futebolista que dá impulso aos processos e aos investimentos. Sem ela, é pedir muito que tudo o resto também não perca importância e significado.

De realidades que conheço e de conversas que vou tendo com treinadores ou coordenadores, há a convicção grande de que mesmo os clubes que competem no Campeonato de Portugal já não conseguem formar e aproveitar jogadores da formação com a qualidade suficiente para garantirem rendimento a esse nível. Claro, também podemos salientar, e com alguma razão, que há pouca vontade nisso. No entanto, o ponto, aqui e agora, é outro: se os jogadores formados internamente não chegam nem para jogarem no terceiro escalão do futebol português, então qual é a vantagem em ter formação?

Insiste-se muito na ideia de que a formação é o caminho a seguir para conciliar o sucesso desportivo com a estabilidade financeira. Mas é o caminho para quem se, logo desde as mais precoces idades, meia-dúzia de clubes, entre milhares, açambarcam os melhores e deixam a maioria com as sobras? Como é que um clube compete com a formação se provavelmente não consegue manter até à idade sénior nenhum dos melhores que vai tendo ao longo dos anos? É bem conhecido o caso do Brentford, que decidiu acabar com a formação por entender que, devido à concorrência de grandes clubes de Londres, não era capaz de juntar nas camadas jovens jogadores com qualidade suficiente para a equipa principal. Tendo em conta todo este contexto, não me espantaria que outros, até em Portugal, tomassem a mesma decisão. Teria lógica.

A formação em Portugal tem problemas sistémicos que, acredito, vão ter mais desvantagens do que vantagens no futuro, se não forem resolvidos ou, pelo menos, minimizados. Os grandes compram tudo, e cada vez mais cedo, têm escolas de formação em todo o lado, equipas que nunca mais acabam. E assim, a este ritmo de soberba, os clubes pequenos estão condenados. Muitos destes problemas são sistémicos, mas também são de origem moral e ética. Numa altura em que se pedem apoios estatais para os muitos clubes que passam dificuldades devido à pandemia, também cabe a quem manda, a quem tem poder, força e influência, olhar para trás e perceber que os problemas são mais profundos e que as soluções para eles vão muito para lá de subsídios e de alguns milhares de euros.

Vasco Samouco