Entrevista #3: Diogo Luís | A falência dos clubes e do futebol, erros e soluções na gestão

29 de Outubro, 2020 - 4 mins de leitura

Ex-jogador de futebol, com passagens por Benfica, entre outros, Diogo Luís formou-se em Economia e é hoje consultor financeiro, especializado em encontrar soluções de investimento. Também exerce funções de comentador na Bola TV e no Jornal Económico. É o terceiro entrevistado para o canal e para o site, depois de Jorge Araújo e Pedro Henriques, e nesta entrevista enumera os principais erros de gestão que tornam os clubes financeiramente mais fracos, mas, acima de tudo, dá possíveis soluções para esses problemas e aponta caminhos capazes de mudar o paradigma, se bem executados. A entrada dos investidores no futebol e como esses podem ser importantes, quando bem enquadrados e analisados, a importância de pensar no longo-prazo sem descurar o curto-prazo e como a falta de cultura e de pensamento coletivo está a prejudicar os clubes em particular e o futebol português no geral, são outros dos temas abordados.

A entrevista completa está disponível NESTE LINK.

Em baixo, deixo-lhe algumas das passagens mais interessantes da conversa.


GESTÃO FINANCEIRA

“Os orçamentos que os clubes criam é fictício e com base em receitas que nunca vão acontecer”.

“Hoje, há receitas fixas, como os direitos televisivos, que são as grandes receitas dos clubes portugueses. Neste sentido, acho que os clubes deviam fazer orçamentos em que o teto fosse esse. Depois, se conseguirem mais 10 ou 20% de outras receitas, terão uma margem para poderem ir gerindo ao longo da época”.

“A gestão financeira não é para fazer negócio, é para ter equilíbrio financeiro e consistência. Se isso acontecer, com o passar dos anos os clubes vão tornar-se mais fortes. Só o facto de as pessoas que vão trabalhar para os clubes saberem com o que podem contar, é um ponto muito positivo. Esses clubes ganham o respeito de todos os que estão no mercado”.

“Os clubes precisam de contratar profissionais que os ajudem a tomar boas decisões, não só do ponto de vista financeiro, mas também com sensibilidade desportiva”.

A IMPORTÂNCIA DE VALORIZAR O PRODUTO

“O futebol português tem que tentar tornar a nossa Liga mais competitiva e mais atrativa para os adeptos. É fundamental pensar nos adeptos. É importante criar um pensamento coletivo e um caminho de maneira a levar mais adeptos aos estádios. Em Portugal, acontece o contrário: afasta-se as pessoas dos estádios”.

“Sem mais espectadores, dificilmente será possível ter outro tipo de receitas. Pelo contrário, se Liga for competitiva, se os estádios estiverem cheios e com a qualidade dos nossos jogadores, abrem-se portas fora do país e podemos pensar em ter outras receitas”.

“Mais vale ter um estádio cheio e 10 mil pessoas a pagarem 1 euro, do que ter 1000 pessoas a pagar 10 euros. A receita é a mesma, mas tens o estádio muito mais apetrechado para atrair patrocínios. Com mais pessoas, a marcar fica mais valorizada”.

“Muitos clubes podiam criar ligações mais fortes com o meio envolvente, mas quando não se sabe comunicar com as pessoas, isso torna-se muito difícil. Os clubes desvalorizaram muitos os adeptos”.

INVESTIDORES: SIM OU NÃO

“Os investidores que temos atraído têm contribuído negativamente para o futebol português. Em Inglaterra, por exemplo, um investidor que queira entrar num clube é esmiuçado até ao limite. Tem que dizer as intenções que tem, os planos, como vai ajudar a comunidade local”.

“Em Portugal, alguém aparece com o maço de notas e pronto, é fantástico. Não se sabe quem é, nem que intenções tem. É preciso um trabalho muito mais apurado neste aspecto”.

“Um investidor a sério vai pôr profissionais a gerir o clube, muito mais do que a emoção, ele vai querer que o clube tenha sucesso. Quem investe dinheiro, quer retorno e isso tem que ser visto como algo positivo porque só há retorno se as coisas forem bem feitas. Se alguém vem para ajudar o clube e a comunidade, é fantástico”.

“Portugal, pela história, pela localização e pela qualidade de vida, é um país que pode ser muito atrativo para investidores. Para além dos grandes, temos um Braga, um V. Guimarães, até um V. Setúbal… Se for bem analisado e se ficar escrito em termos contratuais que quem vier tem um caderno de encargos, não só investir no futebol, mas também na cidade e que se não cumprir isso perde o clube, o risco diminui bastante e ganhamos em termos desportivos e sociais”.

GESTÃO DESPORTIVA

“No futebol, tens sempre que pensar no curto-prazo, se não corres o risco de ao fim de um ano estares fora e o teu projeto nem foi concretizado. É preciso ter olho no futuro, mas ter também um plano imediato. Em Portugal, pensa-se só em vencer, mas não em vencer com consistência e isso é que é negativo”.

“É preciso criar projetos vencedores porque é a partir daí que as pessoas passam a olhar para o clube de forma diferente, mas também há que ter um plano de longo-prazo a seguir, e determinado desde o início”.

“Tem que haver conhecimento desportivo. O scouting está na moda e parece-me algo fundamental, mas não podem ser departamentos com uma ou duas pessoas. A formação é algo em que também se deve apostar e infelizmente só percebemos isso quando estamos com dificuldades”.

Vasco Samouco